Fotografia / Photo
150×100 cm / 100×150 cm
2018
Jato de Tinta em papel algodão / Jet Ink
Edition: 8 + 2pa
10 de 50 imagens
Exposição na Funarte, Edital Artes Visuais Paralelos, Funarte MG. De 22/08/2019 a 25/09/2019
Lançamento do livro: Velaturas. Curadoria: Eder Chiodetto e Fabiana Bruno
Ensaio pré-selecionado Convocatória Festival Paraty em Foco, 2019

O espaço geográfico é uma acumulação desigual de tempos onde convivem simultaneamente diferentes temporalidades.
Milton Santos

VELATURAS
Olhar para um território ocupado é um exercício complexo de percepção arqueológica de muitas camadas que ora revelam e ora escondem a sobreposição de tempos e histórias, invariavelmente marcados por embates e controvérsias de forças e poder. Logo, um território assemelha-se a uma fotografia momentânea e fugaz que em seu suporte bidimensional inevitavelmente falha ao tentar apreender e representar atravessamentos desiguais de tempos.
Durante viagem a Israel em 2018, a artista visual Helena Teixeira Rios visitou as cidades de Jerusalém, Tel Aviv, Acre, Haifa, Safed, Massada e Nazaré – locais que remontam ao quarto milênio a.C. Nesse período, só para citar alguns exemplos, Jerusalém foi devastada pelos efeitos de guerras pelo menos duas vezes, foi sitiada em 23 investidas, sofreu 52 ataques e foi invadida e recapturada 44 vezes.
Berço das três grandes religiões monoteístas, cada esquina, prédio, monumento ou ruína ali estáticos são também arquétipos de expressiva significação para judeus, muçulmanos e cristãos. Trata-se de um território político e religioso desafiador aos fotógrafos interessados por esses cenários de paisagem-história.
Diante de tal perspectiva, Helena se viu desafiada por um problema que aflige qualquer fotógrafo que se aventura na difícil missão de traduzir em imagens as histórias de uma localidade: como revelar, por meio de imagens, a essência de um território ocupado? Eis que, em seu retorno de viagem a Israel, a artista deparou-se com suas fotografias que apontavam para um turbilhão de campos óticos, singulares e difusos em visualidade e emoção.
Na atmosfera cúmplice de seu ateliê, Helena percebeu que as fotografias obtidas em Israel eram como uma argila a ser modelada. Percebeu que se fazia necessária uma ação de intervenção para torná-las uma instância visual e narrativa capaz de expressar suas emoções experimentadas naquele território. Por meio de distintas técnicas, as fotografias foram sendo transfiguradas até transbordarem em outro dinamismo pelo emprego de camadas de tintas, ranhuras, sobreposições, aquarelas que auxiliaram a gerar uma pátina atemporal, rebaixamentos e ocultamentos de determinados referentes.
O que outrora se revelava em demasia verteu-se em opacidade. O que outrora revelava-se evidente tornou-se latente. O olhar indicial da fotografia de caráter documental foi mitigado pelas estratégias experimentais, resultando num território repleto de interditos, velaturas e dubiedades. Assim Helena criou, de forma correlata, um sistema expressivo, impuro e por isso mesmo potente enquanto pensamento sensível. As fotografias com interferências rememoram as experimentações que os ex-pintores e neofotógrafos do final do século XIX realizavam com o intuito de criar obras únicas, quando a reprodutibilidade da imagem tirava da fotografia o status de arte.
Após 180 anos da invenção da fotografia – e, desde então, tendo essa linguagem derrubado tabus até ser incorporada ao circuito oficial de arte -, pode-se considerar que o estatuto da narrativa fotográfica alcançou lugar em que as porosidades entre arte e documento e pesquisa e ensaio conseguem conviver harmonicamente no mesmo conjunto de imagens – ponto de vista complexo e não dogmático, com o qual Helena contribui ao refletir sobre seu campo de interesse, conciliando história, política e poética, sem as quais não seria possível adentrar sensivelmente na aventura humana e em seus embates ao habitar mundos.

Eder Chiodetto e Fabiana Bruno

Geographic space is an uneven accumulation of times where different temporalities coexist simultaneously .
Milton Santos

Looking at an occupied territory is a complex exercise of a multilayered archaeological perception that sometimes reveals, sometimes conceals the overlaying of times and histories, invariably marked by clashings and controversies of forces and power. A territory is therefore like a fleeting photographic snapshot which on its bidimensional support inevitably fails in its attempt to capture and represent uneven crossings of times.
During a trip to Israel in 2018, visual artist Helena Teixeira Rios visited the cities of Jerusalem, Tel Aviv, Acre, Haifa, Safed, Masada and Nazareth – places that date back to the fourth millennium B.C. Within this span of time, to cite just a few examples, Jerusalem was devastated by the effects of wars at least twice, was subject to 23 sieges, suffered 53 attacks, and was invaded and recaptured 44 times.
Insofar as the city is the cradle of the three great monotheist religions, each of its time-enduring street corners, buildings, monuments or ruins are also highly significant archetypes for Jews, Muslims and Christians. Jerusalem is a political and religious territory that poses a challenge to photographers interested in these scenarios of landscape/history.
Helena thus found herself challenged by a problem that is posed to any photographer who sets out on the difficult venture of translating the histories of a certain locality into images: how to reveal, through pictures, the essence of an occupied territory? It was in light of this perspective, after returning from her trip to Israel, that the artist began to sift through her photographs that pointed to a maelstrom of optical fields that were both singular and diffuse in terms of their visuality and emotion.
In the supportive atmosphere of her studio, Helena perceived that the photographs she had obtained in Israel were like a clay to be modeled. She saw that an action of intervention would be necessary to turn them into a visual instance and narrative able to express the emotions she had experienced in that territory. Using various techniques, she transfigured the photographs to the point where they entered another dynamics through the use of layers of paints, scratches, overlayings and watercolors that gave rise to a timeless patina, reductions and concealments of certain referents.
What had previously been excessively obvious became opaque. What had previously stood out became latent. The indexical gaze of documentary photography was mitigated by experimental strategies, resulting in a territory full of interdictions, veilings and uncertainties. Helena thus created, in a correlated way, an expressive system that was impure and therefore imbued with sensitively powerful thought. The photographs with interferences recalled the experiments that the former painters and neophotographers of the late 19th century carried out with the aim of creating unique works, at a time when the reproducibility of the image was annulling the photograph’s status as art.
After a span of 180 years following the invention of photography – during which time this language broke down taboos until being incorporated into the official art circuit – it seems that the status of the photographic narrative has reached a point where the porosities between art, document, research and the essay have managed to coexist harmonically within the same group of images. It is through this complex and nondogmatic point of view that Helena has contributed through reflecting on her field of interest, reconciling history, politics and poetics – without which it would not be possible to sensitively penetrate the human adventure and the clashings that arise in its inhabited worlds.

Eder Chiodetto and Fabiana Bruno