O ARTISTA DAMIÁN ORTEGA

Está sendo exibido no YouTube um programa intitulado Brilliant Ideas. São entrevistas com diversos artistas nas quais são relatados os processos criativos, ateliês, exposições, pesquisas e desenvolvimentos artísticos.

Já assisti a vários. Vou relatar agora o programa do artista mexicano Damián Ortega, que tem uma grande curiosidade pelo cotidiano, materiais e escalas e que enfatiza a experiência e o processo, evocando o ciclo de transformação da matéria.

O artista tinha 16 anos quando abandonou a escola, passando a trabalhar como cartunista. Nos anos 1980, ele conhece o artista Gabriel Orozco, dentre outros, passando a frequentar sua casa e participar de reuniões que aconteciam todas as sextas quando discutiam sobre arte: o Taller de los Viernes.

Um dos seus trabalhos que teve grande repercussão foi feito em 1999. Em uma feira da região, ele adquiriu robôs baratos e remontou-os com frutas e mariscos, reconectando-os ao universo, transfigurando os robôs e montando um ecossistema do futuro, biodegradável. O artista relata que, na ocasião, teve a ideia quando leu uma informação que dizia que as futuras naves espaciais poderiam ter partes comestíveis. Depois da montagem, ele percebeu que não havia nada mais futurista que o uso alternativo do natural. A exposição foi intitulada Economia de Mercado.

Posteriormente, ele se utiliza de materiais comuns encontrados no solo do México e monta esculturas com pedras criando formas geométricas. Ortega explora de que forma os conceitos básicos da geologia podem ser usados como uma abordagem formal para fazer escultura, de que modo a terra documenta sua própria história em camadas. Ambos os trabalhos pretendem se isolar da tecnologia.

Mais tarde, ele pega o seu carro, um Volkswagen Beetle, e o enterra em Puebla, cidade onde era fabricado. O Fusca foi um importante símbolo de uma época no México, sendo o mais vendido durante muito tempo, mas foi retirado do mercado devido à sua obsoleta tecnologia, independentemente de ser ou não popular. O trabalho trata de uma forma de redenção, de cultivar algo para o futuro e também do sepultamento de uma tecnologia. O artista comenta que se sentiu abalado, devido ao seu envolvimento emocional com a história do Fusca. Em 2006, o carro ressuscita e ocorre seu desenterro.

Mais uma vez utilizando um Volkswagen Beetle, ele desmonta o Fusca e dependura seus pedaços, fixando-os no teto. Trata-se da montagem da exposição Cosmic Thing. Ortega conta que o trabalho pretende ressaltar a importância das coisas que não podem ser vistas – a relação entre as peças e suas funções e materiais.

Suas esculturas desconstroem e reconfiguram produtos comerciais. Ortega tem um fascínio pela maneira como as coisas do cotidiano são construídas, assim como um grande interesse pelas ferramentas (sua vida interior) e elementos que facilitam o processo de construção: desde picaretas e roldanas até tijolos e moléculas. Ele acrescenta que sua arte é reversível, pode ser montada e desmontada, o sentido vem da ordem e da desordem.

Em outra exibição, também com o Fusca, ele cria um trabalho chamado Mob Dick, no qual várias cordas são amarradas ao veículo inserido em um piso com graxa. Ao dirigir o veículo, o motorista tenta sair do lugar, mas é puxado por pessoas que esticam a corda ora para um lado, ora para outro, impedindo-o de mover-se, como se fosse um cabo de guerra. O artista conta que, por meio desse trabalho, quis ressaltar a natureza e o poder contra o homem.

Esses trabalhos compõem a Trilogia Beetle. Ele quis oferecer uma dimensão ampliada do objeto e explica: “A lógica da fragmentação é do acaso, do acidente, da eventualidade, da contingência, do efêmero e do incompleto”. Escultura é ação, e não objeto.

O artista explica outro trabalho, exposto na galeria White Cube e que se trata de um imenso saco construído com sacolas recicláveis no formato de um submarino suspenso e repleto de sal. O trabalho foi elaborado após o artista ter lido no jornal uma matéria sobre o uso de um submarino para transportar cocaína. O submarino do artista deixa cair o sal e vai sendo destruído no decorrer da exposição. Estabelece-se um paralelismo entre o sal e a cocaína. Da mesma maneira que o sal foi a base do comércio na colonização, o narcotráfico é uma importante fonte de renda para diversos países.

 

Ao longo do tempo, Ortega teve exposições individuais em quase todas as instituições relevantes em todo o mundo, desde a Kunsthalle Basel, passando pela Tate Modern e o Centre Georges Pompidou, até o Museo Reina Sofía em Madrid. Participou de inúmeras exposições coletivas, com destaque para a Bienal de Veneza, a Bienal de São Paulo e a Bienal de Havana. O artista foi indicado ao Prêmio Hugo Boss e ao Preis Der Nationalgalerie für Junge Kunst e fez residência na Deutscher Akademischer Austauschdienst, em Berlim. Com sua última exposição na galeria Gladstone chamada simbolicamente Têxtil, ele apresentou o novo corpo de obras escultóricas em têxteis e cerâmicas com foco no método de produção

Vale a pena conferir!

https://www.youtube.com/watch?v=RJ2VVbijG2M

Fonte de Pesquisa:

Damián Ortega: Cómo desarmar el mundo

Helena Rios

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