NIEMEYER NO LÍBANO E OS “Ciclos do Progresso em Colapso”

Achei muito interessante esta “novidade antiga”: uma obra de Oscar Niemeyer projetada na década de 1960 no Líbano. O projeto, intitulado “Feira Tripoli”, sonho do presidente libanês Fouad Chehab, idealizava 14 estruturas de concreto feitas em um parque de 10 mil hectares. O intuito era o de trazer esperança, progresso e modernidade ao país. O planejamento do espaço abarcava um heliporto, um centro cultural, um teatro, uma sala de shows, alojamentos, etc. Contudo, o projeto não foi viabilizado e o parque permaneceu inativo durante 25 anos. 

A ocorrência da Guerra no Líbano, em 1975, condenou completamente o andamento da execução da obra, colocando um fim ao sonho. O espaço passou a servir como  local de base militar até o final da guerra, em 1990. Os ataques ao Líbano foram feitos pela seita do islamismo xiita e, mais tarde, por tropas sírias.

Em setembro e neste mês, uma montagem de uma exposição de arte contemporânea intitulada “Ciclos do Progresso em Colapso” foi montada nesse parque. 

O artista Zad Moultaka utilizou uma das obras inacabadas, tendo escolhido uma construção subterrânea com 60 metros quadrados. Como suportes, foram usadas as barras de ferro que sustentam a cúpula, o que permitiu o atravessamento de cordas, conformando uma enorme teia de aranha. Além disso, foi pensada uma instalação sonora que reproduz o som dos batimentos cardíacos, transformando “o local em uma espécie de ser vivo, à procura da memória esquecida”.(segundo Muriel Maalouf, Uol, 16/10/2018)

Outra obra foi idealizada no local. Dois artistas, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, fizeram um documentário sobre um programa espacial libanês que previa o lançamento de vários foguetes sem astronautas na década de 1960. Somente um deles conseguiu atingir seu objetivo. Dessa maneira, os artistas conceberam uma reprodução do foguete Cedar, ocupando o local onde seria o museu. 

Um concerto também chamou a atenção para os imigrantes que vivem ilegalmente em Trípoli, e uma peça de teatro feita no local onde esta construção deveria existir enfatiza sua atual não utilização. 

A arte permitiu que o espaço fosse reaberto, chamando atenção para seu abandono. Esse processo interventivo permitiu a indicação da Feira como candidata ao título de Patrimônio Mundial da Humanidade. Também neste ano, a Feira entrou na lista da Fundação Getty, uma entidade que repassa um fundo de conservação para beneficiar a restauração de construções icônicas.

Iniciativas como essa, que neste caso possibilitou reacender a discussão a respeito do complexo arquitetônico abandonado, são o que confere valor à arte. 

A contingência do país, que está sem governo desde maio, agrava ainda mais a situação do local, sendo sua conservação uma incógnita.

Idealizações utópicas tornam fácil perceber que não é só no Brasil que o descaso com o patrimônio acontece. A feira de arte acendeu uma pequena chama de esperança para o local. Que mais iniciativas como esta aconteçam!

Referências | Fotos:

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2018/10/22/artistas-fazem-protesto-para-salvar-obra-de-niemeyer-no-libano.ghtml

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/rfi/2018/10/16/projeto-inacabado-de-niemeyer-no-libano-e-reaberto-com-exposicao-de-arte.htm

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/rfi/2018/10/16/projeto-inacabado-de-niemeyer-no-libano-e-reaberto-com-exposicao-de-arte.htm

Helena Rios

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