NÓS, O OUTRO, O DISTANTE: na arte contemporânea brasileira

O TEMPO NA ARTE CONTEMPORÂNEA

Quando iniciei a leitura do livro Nós, o outro, o distante, de Marisa Flórido Cesar, que retrata a arte contemporânea brasileira, me lembrei do texto de Boris Groys intitulado “Camaradas do tempo” (2009). Nele, o autor aborda que ser contemporâneo é estar com tempo, e não estar no tempo. A arte que expressa a presença do presente, o “aqui-agora”, é autêntica. O presente é o que canaliza a passagem do passado para o futuro, sendo o passado alterado e o futuro incerto. 

Dessa forma, a arte que trabalha “com base no tempo” nos permite “ser no tempo” sem criar um produto definido. Assim, este tempo não produtivo, perdido e expandido é o que importa na representação da arte contemporânea. Somado a isso, ele coloca a importância da participação do espectador, tornando-se a arte uma documentação do tempo perdido. Tempo repetitivo e expandido. Como exemplo, ele cita obras do artista Francis Alÿs, nas quais o tempo é expandido e o cotidiano assim é mostrado sem produtividade.

Estou citando a abordagem desse texto de uma maneira muito suscinta, já que o tema é bem mais amplo. O que vem ao caso é que acabei estabelecendo um vínculo entre o texto de Boris Groys e o livro Nós, o outro, o distante, de Marisa Flórido Cesar. Uma vez que também nos faz pensar sobre o tempo contemporâneo.

No seu livro, ela aborda como os artistas enfrentam o mundo onde o tempo não mais é linear, e sim em rede, simultâneo. O local e o longe estão próximos e distantes ao mesmo tempo. O tempo se torna não mensurável. O presente passa a ser um intervalo entre o passado e o futuro. 

A utopia das cidades sem fronteiras cada dia se torna mais distante. No espaço contemporâneo, prevalecem os muros invisíveis ou visíveis. 

A globalização criou fluidez, mas não “universalizou” o mundo, não diminuiu as fronteiras. Mas criou formas de comunicação que permitem a circulação acelerada de notícias, aglomerações, movimentos sociais com grande poder coletivo. 

Nessa esfera, a arte busca sem dúvida ocupar uma representatividade que acompanhe todo esse desenrolar, questionando as relações de poder, de tempo contemporâneo e as vivências. Contudo, importa entender que a arte quer interrogar, experimentar, dispersando fronteiras, intervindo nas cidades e na intimidade, revelando crises pessoais e não globais. 

Além disso, a arte quer alterar o cotidiano ou a maneira como se o percebe ou o dimensiona. Perturbando, intervindo nos hábitos culturais, criando ruídos que fogem de determinismos, descontrolando para gerar questionamentos e sentimentos. 

Assim, a arte fricciona, cria tempos e espaços, acumula dúvidas e incertezas. 

No livro, vários artistas e projetos são citados, estabelecendo ricas reflexões. Em resumo, a autora nos permite julgar, perceber e, muitas vezes, não concluir.

Trabalhos de: . Berna Reale | Quando todos calam, 2009 e . João Manuel Feliciano | Crystallus Capillus, 2007

Autora: MARISA FLÓRIDO CESAR  Editora: CIRCUITO, 2014

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Helena Rios

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